Abraçar

Abraçar: Cingir com os braços; dar um abraço em; compreender, estender-se a; admitir, aceitar, seguir.

Abraçar, uma das coisas mais indescritíveis no mundo. Teus braços envoltos em mim, meus olhos fechados, e nenhum pensamento a não ser o desejo de que aquele momento nunca acabasse. O calor do seu abraço para mim era a música mais doce que existia. Tão bom o abraço teu. Sentia-me protegida, como se nada mais no mundo pudesse fazer algo contra mim. Ou contra nós, e o abraço teu. Parecia que não haviam guerras, corrupções e tudo que há de ruim, só paz e nada mais. Teu abraço de iludia, a ponto de querer aquilo para o resto de minha vida.
Você me olhava, no fundo dos olhos, e me provocava um dos sorrisos mais bobos e verdadeiros que existem. Chegou sem perceber, e me abraçou, segurou todas as minhas estruturas e pôs tudo de ruim para fora de mim. Escorei-me no teu ombro, sem nenhuma palavra a dizer, só um sorriso para mostrar. Não ouvia nada, a não ser tua respiração ofegante. Te abraçava forte, tão forte quanto a certeza que queria aquele abraço para o resto da minha vida.
Infelizmente, tive que dizer 'adeus'. Larguei-me dos teus braços, sorri e, por apenas um momento, havia esquecido do resto do mundo. Já estava com saudade do teu abraço. Queria repetir, e repetir, e repetir, até não dar mais. Sentia aquele momento inacabado, o frio que apareceu me lembrou o calor dos teus braços. Não tinha nenhuma palavra, ou letra sequer, que pudesse descrever o teu abraço do jeitinho que ele é. Inexplicável. Abraçar, uma das coisas mais indescritíveis no mundo.

Devaneio



Devaneio: s.m. Quimera, fantasia; ideia de quem devaneia; delírio, desvario.
Devanear: Fantasiar, sonhar, idear; ter devaneios; divagar com o pensamento.


Revirava-me na cama, idealizando coisas que não existiam. Lembrava de diálogos, de sorrisos, de brigas e discussões bobas que eu já tinha provocado; pensava: como aconteceria se tivesse tido outra atitude? Mas no fundo, tudo aquilo fazia muito mal para mim. Eu imaginava finais felizes onde tudo aconteceria como se tivesse sido planejado em uma folha de papel. Imaginava nós dois, andando de mãos dadas sobre o píer de Guaíba, olhando o sol se pôr. O vento cortava forte, e você havia me dado sua jaqueta pois já estava escurecendo e, como de costume, eu esquecia de trazer um casaco para o frio que aparecia no entardecer. Não que estivesse realmente com frio: suas mãos entrelaçadas nas minhas afastavam tudo de ruim que viesse contra mim. É como se, quando você segurasse minhas mãos, você levasse embora toda a minha insegurança. E quando o sol estivesse quase desaparecendo, você me arrepiaria com um beijo longo, que me fazia esquecer de tudo que havia ao redor de nós dois.
Imaginava você acordando ao meu lado numa fria manhã de segunda-feira, me abraçando e cochichando coisas tão doces quanto um poema de Caio Fernando Abreu. Você dizia o quando eu era bonita com as suas camisas largas, cabelo preso, sem maquiagem. Eu não falava nada, apenas sorria e te abraçava, apenas por você estar ali, ao meu lado. Você me preparava um café quente e um prensado para café da manhã, do jeito que eu gostava, e me esperava para a refeição apenas para ver a minha reação. Você me atrasava, e implorava para eu ficar junto com você naquela manhã, e, enquanto eu me cedia inteiramente a você, você acariciava meu cabelo enquanto me beijava. Eu tinha a sensação que eu era sua e de mais ninguém.
E depois de pensar em mentiras idiotas como essas, eu me silenciava. Eu era mesmo boba por ter a ilusão de que em algum dia nesse ou em outro Universo, tudo isso realmente aconteceria. Te odiava toda noite por isso: me iludir a esse ponto. E enquanto você trocava mensagens e ligações com quem você gostava, eu contava histórias idiotas a mim mesma, lamentando-me por não ser suficiente para você. Por fora, nada entre nós acontecia, a não ser piadas aleatórias e, uma vez ou outra, um cumprimento tímido. Me levantava da cama, calçava uma pantufa e descia as escadas, até chegar à cozinha. Recolhia a cafeteira e preparava um café quente. Enquanto pensava em você me preparando esse café e um outro prensado, ouvia a cafeteira fazer um barulho horrível, como se me dissesse que nada daquilo nunca aconteceria. Odiava café, mas ele me fazia lembrar de você, e quando percebia, estava a tomar uma xícara densa de café preto embaixo de uma coberta quente. Um café velho que substituía o café que você me prepararia com maior cuidado. Uma coberta quente que substituía o calor dos seus braços.